Eça de Queirós e o Arroz de Favas

Douro – As famosas favas de Tormes

Feitas com arroz, foram literariamente cozinhadas, no final do século XIX, por José Maria Eça de Queirós. Servidas à luz da vela, por uma «rija moça de peitos trementes», fizeram a felicidade de um desenxabido Jacinto, que, na sua requintada Paris, «sofria de fartura», no dizer do preto Grilo.

Fernando-António Almeida | quinta-feira, 28 de Junho de 2012

“O século XIX está quase a findar. Será ainda na década de 80 que Jacinto entrará pela primeira vez em Portugal. Neto de um legitimista ferrenho, D. Jacinto Galião, que se exilara após a partida do rei D. Miguel para o desterro, depois da derrota que este sofrera em 1834, Jacinto já nascera em Paris. E é em Paris que habita, num luxuoso apartamento (o 202), na Avenida dos Campos Elísios. Accionista de importantes companhias, grande proprietário em Portugal, Jacinto tem um amigo, o Zé Fernandes (José Fernandes de Noronha e Sande), um homem de Guiães, no Douro, lugar próximo de uma quinta que Jacinto possui, numa suposta Tormes duriense.

Riquíssimo, criado em berço de ouro, o neto de D. Galião rodeia-se daquilo que mais moderno e requintado lhe proporciona o progresso parisino: uma infindável biblioteca, múltiplas e contraditórias ideias, múltiplo e fatigante conforto, vida social intensa e requintada, múltipla maquinaria eléctrica (luminárias, grafofone, fonógrafo, teatrofone…). Jacinto tinha mesmo quota-parte numa famosa cocotte parisiense. Mas, no meio de tudo isto, o nosso homem era céptico, sentia-se enfadado e infeliz. Como filosofava o Grilo, o criado preto: «Sua Excelência sofre de fartura».

Tudo, até que um dia, acompanhado do seu terra a terra Zé Fernandes, o – à sua maneira – quixotesco Jacinto toma um comboio e parte para Portugal. E vai ser aqui, em Tormes, na sua quinta, num casarão desabrigado, desnudado das mínimas comodidades (janelas sem vidraças, uma enxerga por cama…), que o Jacinto parisiense terá a sua primeira experiência de Portugal. Desde logo, perante tal situação, o seu desespero não tem limites.

Até que, noite caída, chegou a hora e a vez da ceia… Alumiados por «duas velas de sebo em castiçais de lata», os dois amigos sentam-se à mesa – uma mesa recoberta por uma toalha de estopa. Pratos grossos, de louça amarela, colheres de estanho, garfos de ferro. Copos de vidro espesso, que conservavam a sombra roxa de vinho que por eles passara. Uma malga de barro com azeitonas…

Só que, agora, chega um caldo de galinha que rescendia; tinha fígado e tinha moela. E, logo, Jacinto, surpreendido, iria exclamar: «Está bom!». Mas a grande surpresa viria a seguir, como conta Zé Fernandes: «E (Jacinto) já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado – e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo!

Jacinto em Paris sempre abominara favas!… Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala… Depois um brado: – Óptimo!… Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia! E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio…

– Deste arroz com favas nem em Paris, Melchior amigo!». Está tudo dito. Ponhamos de lado, então, o prato que se segue, o «louro frango assado no espeto», acompanhado de salada. Não ponhamos de parte, contudo, aquele vinho de Tormes, «caindo do alto, da bojuda infusa verde – um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo».

Pois foi aqui, neste «A Cidade e as Serras», de Eça de Queirós (1845-1900), obra editada já em 1901, que estas humildes favas, cozinhadas num casarão longínquo do Douro, tiveram o seu grande momento glória. As favas que mais brilharam, não só em toda a literatura portuguesa, mas decerto – gostaria de crê-lo – as que mais se destacaram em toda a literatura universal…

Este artigo foi retirado da edição nº 9 da Revista Epicur

 

Eça de Queirós e o Arroz de Favas

 

Receita de Arroz de Favas

Chegaram as Favas! Gosto muito de favas guisadas, adoro arroz de favas, e pelos vistos não sou só eu, já o Jacinto, chegado de Paris, em Tormes, também não gostava e quando provou ficou a adorar.

Ingredientes:

  • As favas que sobraram do almoço com água suficiente para cozer o arroz
  • 1 molhinho de coentros
  • 1 ramo de hortelã
  • Sal

Num tacho com as favas e os enchidos junta a água, quando estiver a ferver deita o arroz e as ervas.

É só cozer o arroz e está pronto, se precisar vá acrescentando água. Se não lhe tiverem sobrado favas, comece por guisá-las de princípio, como na receita das “Favas Guisadas”.

Tal como no jantar em Tormes, também podemos acompanhar com o «louro frango assado no espeto» como na «A Cidade e as Serras», de Eça de Queirós, ou então com uma entremeada bem frita em óleo e temperada com sal, como se fossem batatas fritas. Não é a mesma coisa, mas também sabe muito bem.