Hoje há galinha e galo, cabidela asséptica e galo capão

0 Posted by - 03/12/2012 - EU, HISTÓRIAS

Hoje há galinha e galo, cabidela asséptica e galo capão.

Cabidela Asséptica

Eu ia sempre com o meu pai. À Praça da Ribeira, comprar uma galinha viva, condenada a canja ou cabidela. Subia o bicho ao cadafalso do colo da vendedeira e era morta de corte de gasganete e despida de penas e aflições. O sangue corria para a tigela, em golfadas coloridas que nos pintavam o rosto e zonas arredores.

Agora as galinhas fresquinhas deram lugar ao fresquinho do ultracongelado, utra-higienizado. O sangue é à parte, ensacado sob os mais rigorosos princípios de assepsia moral.

Será que o homem do matadouro lavou as mãos?

O Galo Capão

“Tirem-lhe os ditos e vão ver como fica enorme e ainda mais saboroso!” – dizia o meu pai. Tinha eu 8 anos, em terras de Ribatejo. Dito e feito. Vem o capador e desgraça o galo que administrava a capoeira. O galo, machão ribatejano que geria o harém como ninguém, viu-se privado dos galões da sua masculinidade.

Morreu. Uns dias depois, de tanta pena e pior humilhação.

O meu pai pôs as culpas na técnica do capador. Eu, na tristeza mais que justificada que mata qualquer homem – humano ou animal – a quem lhe cortem os ditos.

Cirurgias galináceas

A minha mãe operava as galinhas.

Ao primeiro sintoma de papo-rijo, lá vinha a Mãe-Doutora armada de tesoura à laia de bisturi e, zunga! – Abria-lhes o papo, sacava a causa da maleita, fechava-o de novo com agulha, linha e com o à vontade de quem faz a bainha de umas calças.

Zonzas de surpresa e de alívio, lá seguiam as galinhas para a sua caminha, onde a minha Mãe-Doutora colocava um saquinho de água quente para aconchegar e ajudar à rápida recuperação das combalidas criaturas.

Grafe e Faca Hoje há galinha e galo

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